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Month: December 2025

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Posted on 2025/12/26 - 2025/12/26 by holasoyp1x0




Uma introdução à teoria da pós-civilização


Margaret Killjoy 2010


Uh, essa tal de civilização foi um troço interessante, não foi? Quero dizer, realmente valeu a tentativa. Nós conseguimos várias coisas com ela: telescópios, cadeiras de roda, a Wikipédia. Mas nós também estamos prestes a exterminar o mundo natural. A ciência, a agricultura, e a especialização fizeram muito para expandir ideias, culturas e comunicação, mas elas fizeram ainda mais pelos genocídios e ecocídios.

Então é chegada hora que todos nós abandonemos este nobre, e fracassado experimento e caminhemos em direção a algo novo.


Premissa Um: Nós Odiamos a Civilização

Esta civilização é, desde sua fundação, insustentável. Ela provavelmente não pode ser recuperada, e mais que isso, não é desejável recuperá-la. Quando discutimos civilização, estamos discutindo a totalidade das estruturas organizacionais do mundo moderno e abordagens à cultura. Estamos falando sobre códigos sociais e legais que ditam comportamentos “aceitáveis”. Estamos falando sobre pulsões de centralização e expansão de impérios políticos e econômicos.

A civilização está destruindo toda vida na terra. É insustentável: economias e sociedades baseadas em crescimento sempre são. A civilização é irredimível: parece haver uma chance infinitamente pequena de que ela abandone o consumo excessivo de recursos e se mova rapidamente em direção a uma existência sustentável. E mesmo que o fizesse, nós não queremos isso. Ela ainda seria uma limitação a nossa liberdade.

A civilização tem sido definida de inúmeras formas, mas nenhuma delas a faz parecer algo bom quando você de fato pensa sobre o assunto. Meu dicionário define civilização como “o estágio de organização e desenvolvimento social humano que é considerado o mais avançado”. Além de ser uma definição quase inútil, ela aponta ao inerente preconceito na civilização. Ela diz: “Nós somos avançados. Vocês são primitivos. Além disso, a história e o progresso são de natureza puramente linear, o progresso só se move adiante, e qualquer desvio deste curso é um retrocesso.”

Outra definição possível de civilização pode ser a que encontramos na Wikipédia, que geralmente oferece um tipo de consenso cultural para certos termos. A Wikipédia descreve a civilização como “uma sociedade definida como uma sociedade complexa, caracterizada pela prática de agricultura e assentamentos em cidades… Comparadas com estruturas menos complexas, membros de uma civilização estão organizados em uma divisão de trabalho e intrincada hierarquia social”. Essa definição também aponta para falhas na civilização. Uma intrincada hierarquia social? Porque nós escolhemos um mundo que suporta esse tipo de merda ?

Derrick Jensen, um teórico anti-civilização (mas não pós-civilização), propôs outra definição útil de civilização: “uma cultura — que é complexa em histórias, instituições, e artefatos — que leva e surge do crescimento de cidades (civilização, vide civil, da civis, significando cidadão, do Latim civitatis, que significa cidade-estado).” O que, é claro, nos leva a perguntar, o que exatamente é uma cidade. Derrick define uma cidade, para o propósito de sua definição de civilização, como: “pessoas vivendo mais ou menos permanentemente em um local em densidade alta o suficiente que exija a importação rotineira de alimentos e outras necessidades básicas da vida”.

E esse, talvez, seja o ponto de tudo isso. Se um lugar exige recursos de outro, tudo está bem enquanto se pode fazer comércio. Mas quando os vizinhos agricultores passam por uma seca e não podem oferecer excedente para o comércio? Aí você tem uma guerra. Ótimo.

Nós odiamos a civilização.

Premissa Dois: Nós Não Somos Primitivistas

Não é possível ou desejável, retornar a um estado de ser pré-civilizado. Entretanto, a maior parte da base do pensamento anti-civilização — um trabalho importante, diga-se de passagem — foi criada por primitivistas. Primitivistas acreditam, em sua maioria, que a humanidade estaria melhor se retornasse a uma forma de vida pré-civilizada. Esta não é uma visão da qual compartilhamos.

Primitivistas rejeitam a tecnologia. Nós rejeitamos apenas o uso inapropriado da tecnologia. Agora, para sermos justos, este é quase todo o uso de tecnologia que nós vemos no mundo civilizado. Mas nosso problema com a maioria dos primitivistas é sobre o bebê e a água da banheira. Sim, a maioria das tecnologias está sendo usada para fins malignos — seja a guerra ou simplesmente ecocídio — mas isso não faz da tecnologia (“a aplicação de conhecimento científico para propósitos práticos”) inerentemente maligna. Só significa que nós precisamos reimaginar completamente como interagimos com máquinas, com ferramentas, e até mesmo com a ciência. Nós precisamos determinar se algo “é útil e sustentável, invés de julgarmos as coisas puramente por seu valor econômico ou militar.

Primitivistas rejeitam a agricultura. Nós rejeitamos a monocultura, que é uma aberração centralizadora, destrói a autonomia regional, força a globalização no mundo, e leva a práticas horrendas como queimadas. Nós também rejeitamos as ideias estúpidas de como alimentar a humanidade, como soltar 6 bilhões de pessoas no mato, para se tornarem caçadores e coletores. Em sua maioria, pessoas pós-civilização abraçam a permacultura: sistemas agrícolas criados desde o princípio para serem sustentáveis em qualquer área em que se desenvolvam.

Primitivistas fizeram um bom trabalho de explorar os problemas da civilização, e nós os agradecemos por isso. Mas, no geral, suas críticas não tem nuance.

Mais que isso, a estrutura social que eles vislumbram, o tribalismo (perceba que, o que nossa sociedade vê como tribalismo é muito baseada numa antropologia falha e eurocêntrica), pode ser socialmente conservadora: o que muitas tribos não tinham em leis codificadas, era sustentado por “costumes” rígidos, e uma geração nascia em um modo de vida quase idêntico aos de seus predecessores.

Nós não podemos, em massa, retornar a um modo de vida pré-civilizado. E honestamente, a maioria de nós não quer. Não nos agrada uma rejeição total a tudo que a civilização nos trouxe. Nós olhamos para frente, não para trás. 

Nós não somos primitivistas.

Premissa Três: Nós Somos Pós-Civilizados

Portanto, é desejável imaginar e criar uma cultura pós-civilizada. Isso é algo que nós podemos fazer aqui e agora, nas instáveis últimas cartadas do jogo da civilização.

Há tantas dicotomias no mundo. O músico amador e o profissional, ambos têm tanto a oferecer, e nós, pessoas pós-civilizadas geralmente cultivamos habilidades especializadas e generalistas. Alguém tem que ser bom em polimento de lentes — e optometria — mas isso não significa que você não deveria ser capaz de cozinhar uma refeição decente, ou ajudar com a horta do seu vizinho.

Uma das maiores falhas da civilização é sua tentativa de homogeneizar uma cultura global, para espalhar um conjunto de ideias de como tudo — da governança, a arquitetura, até a música — deve ser feita de forma “apropriada”. Mas se você construir casas de telhados chatos em climas frios, a neve vai se acumular  e seu telhado vai cair. Se você derrubar árvores na costa de uma colina, do mesmo modo como faz nos vales, seu solo vai erodir.

Então, nos movemos em direção à pós-civilização — com ou sem o colapso industrial — é uma questão de olhar ao redor de si, da sua comunidade, do seu solo, e determinar o que é apropriado. O que isso significa é que, no aqui e agora, há partes da cultura civilizada que podemos utilizar para nosso benefício, que talvez não possamos usar uma ou duas gerações após o colapso. Para os que estão no primeiro mundo, nosso recurso mais abundante é o lixo.

Comida boa pode ser resgatada. Comida estragada pode ser compostada e usada para construir canteiros suspensos sob o solo venenoso das cidades. Papel em branco em um ou dos dois lados, pode ser costurado em um caderno. Outros papéis podem virar polpa em um liquidificador, espalhados em telas, e pressionados por um macaco hidráulico reproprositado. Animais mortos em atropelamentos podem ser esfolados e carneados. Brinquedos elétricos podem ser reciclados, suas placas de circuitos e motores, repropositados. O óleo vegetal usado pode ser recolhido de caixas de gordura e usado para moer nossos carros ou mesmo nossos geradores.

E os críticos vão dizer que isso não pode funcionar para sempre, e eles vão nos olhar confusos quando nós balançarmos nossas cabeças, concordando. Pois nós vamos nos adaptar com as mudanças do cenário, pois o que funciona em um momento ou local pode não funcionar em outro.

 A civilização pensa que a cultura naturalmente vai do civil ao selvagem, do urbano para o rural. Nós não. 

Nós somos pós-civilizados.

Se Tudo Der Certo

Com o que uma cidade se parece se ela não for mais uma cidade? O conceito de cidade, como uma entidade por si só com fronteiras específicas, governo centralizado, e sua rotina de necessidades importadas, precisa desaparecer. Mas nós não vamos todos nos espalhar pelo interior, ah não.

A cidade pós-civilizada? (Não-cidade? Área urbana? A terminologia ainda é um pouco difícil), pode se parecer com uma cidade se você ignorar seu governo. A sociedade se constituiria de pequenos grupos que mantêm suas identidades individuais mas são capazes de trabalharem juntas por um bem comum.

Nós, pós-civilizados, buscamos comprovar que a descentralização da nossa cultura, economia, e políticas é possível e desejável. Cada pequeno grupo (alguns podem usar a palavra tribo, eu prefiro não) tomaria suas próprias decisões, manteria sua autonomia, e resolveria problemas de forma que atendesse suas necessidades e desejos. Outros podem viver de forma mais simples. Mas as fronteiras entre os grupos muito provavelmente será porosa, com indivíduos, grupos, e famílias se movendo entre esferas sociais. Honestamente, socialmente seria muito como hoje, se você removesse as hierarquias entre grupos e ativamente evitasse a influência centralizadora da cultura civilizada.

Esses grupos eventualmente vão brigar ? Provavelmente. Nenhum sistema é perfeito e é melhor admitir isso logo do que se iludir. Não estamos pintando uma utopia aqui. Mas no passado houveram movimentos que desenvolveram estruturas políticas para permitir grupos com interesses diversos interagissem pacificamente. Um destes movimentos pelos quais somos influenciados, é o sindicalismo.

O sindicalismo é um sistema econômico totalmente fora da dicotomia capitalista/estatal-socialista. Ele sugere que uma federação de sindicatos coletivizados pode promover apoio mútuo entre seus membros. Para um pouco de história sobre quando o sindicalismo funcionou de maneira exitosa em uma nação desenvolvida, pesquise sobre a Revolução Espanhola.

Apoio mútuo, então, é o oposto da competição. A Wikipédia descreve como “o conceito econômico da troca voluntária recíproca de recursos e serviços para benefício mútuo”. Um dos primeiros anarquistas — e biologistas evolucionários — foi Peter Kropotkin, que argumentava contra a sugestão de Darwin de que a natureza é puramente uma guerra de um contra todos. Invés disso, ele argumentava, a cooperação intra espécies é, no mínimo, uma força evolucionária tão relevante quanto a competição. Mais que isso, a ciência moderna finalmente mudou de ideia e começou a acreditar em suas teorias.

Agora, nós também não somos exatamente sindicalistas. Socialismo é uma ideia adorável, mas nós não estamos falando sobre sindicatos, e nós não estamos falando sobre industrialização. Nós deveríamos nos ater aos princípios do anarquismo histórico, tanto quanto deveríamos nos ater ao feminismo de segunda onda, ou, nesse caso, a civilização. Não, estamos falando de um grupo dinâmico de pessoas se reunindo organicamente para tomar as poucas decisões que poderiam impactar a não-cidade como um todo.

Nós estamos falando sobre os steampunks daqui aperfeiçoando destilarias solares pelo uso de lentes Fresnel, enquanto outro grupo de ciclistas entusiastas, de lá, passam seu tempo correndo, fazendo trabalhos de entrega para outros grupos, e forjando bicicletas com canos. Um clique semi-nômade de adolescentes vai se mudar para as florestas dos subúrbios abandonados e criar cabras, enquanto um eremita passa seu tempo cultivando batatas em pilhas de sacos e gravando piano clássico em cilindros de cera.

Alguém vai conectar um Super Nintendo a um painel solar, e pessoas de todos os estilos de vida vão se reunir para jogar Street Fighter; ou só para olhar. Todos nós vamos cultivar a maior parte da nossa comida, e nós todos vamos lidar com nosso próprio lixo, lavar nossos próprios pratos.

O Colapso

E é claro, se tudo der certo, nós vamos superar a civilização da forma mais pacífica e não destrutiva possível. Nos organizando pela base. Apresentando soluções que são tão razoáveis que quem estiver no poder e ainda possuir um mínimo de ética, se une a nós, e os sem ética veem seu poder econômico definhar conforme mais pessoas se recusarem a participar em comércio civilizado. É possível que a única pergunta seja, quem vai colapsar primeiro: a civilização industrial ou a habilidade da Terra de sustentar vida humana.

Se for o caso, então é melhor que tenhamos esperança (ou agirmos) pela primeira opção.

O colapso da civilização industrial, se acontecer, será horrível. Nenhum de nós, nem mesmo os que secreta ou abertamente esperam pelo apocalipse, vai se divertir. Mas ao contrário das mentiras de Hollywood, as pessoas dão o melhor de si em momentos de crise. Nada une mais uma vizinhança do que um apagão; nada faz as pessoas compartilharem mais do que passar por momentos de racionamento de comida. (O quê, você achou que todos nós iríamos estocar toda comida possível e sair por aí com espingardas, matando ou morrendo, vizinhos incendiando um a casa do outro? Nem sempre seres humanos agem assim. Oque você pensa que somos, civilizados?

Mas se a economia não cair, e nós não entendermos como a fusão a frio funciona (assim como a renovação dos oceanos), nós vamos encarar algo muito, muito pior. O colapso ecológico vai estilhaçar o mundo como conhecemos. E se algum de nós sobreviver quando a poeira baixar, nada vai ser o mesmo. Nós precisamos abandonar a civilização assim que possível, antes que ela destrua a todos nós.

Enquanto Isso

Nós não queremos mais sermos civilizados. É hora de seguir em frente. Nós queremos rejeitar hierarquias malucas e economias ilusórias, colonialismo e estados-nação. Mas, acontece que não nos deram a opção de ir embora. A civilização nunca, em momento algum de sua história, deu espaço para os não civilizados florescerem. Chega ao ponto de pensarmos que essa é uma característica fundamental da civilização: a civilização tem tanto medo de estar errada que não é capaz de suportar que alguém viva de outra forma.

E mesmo que nós conseguíssemos de fato ir embora, isso não impediria a civilização e a economia de destruírem a terra.

Mas, vamos ser otimistas aqui por um segundo. O planeta pode morrer ou pode não morrer. A civilização vai cair, ou a civilização talvez não caia. O que nós vamos fazer, aqui e agora, com as nossas vidas?

Eu não quero dizer para ninguém como se envolver na épica batalha para salvar a terra, para destruir a civilização, para prevenir ou promover o colapso disso ou daquilo. Essas perguntas são do tipo que devemos responder por nós mesmos.

Mas eu encorajo que você encontre ou desenvolva um modo de vida pós-civilizado. Por um lado, é fácil. Feche seus olhos e imagine quem você seria fora de qualquer limitação social. O que você faria se dependesse apenas de si mesma, suas amigas, e os recursos que vocês podem encontrar ao seu redor. Como você se vestiria ? O que você comeria? Talvez as perguntas mais importantes sejam mais sutis: como você trataria seus amigos? Como você gostaria de ser tratada?

No aqui e agora, nós adquirimos habilidades para sobrevivermos: como carnear e esfolar, arqueirismo e produção de pólvora. Herbalismo e acupuntura, sim, mas também estudar a aplicação (e produção) de antibióticos, métodos de cirurgia e odontologia. Nós usamos a permacultura, reflorestamos, e reciclamos paisagem urbanas, suburbanas e rurais, aprendendo o que significa ser sustentável num mundo que está morrendo. Nós rasgamos nossos quintais e criamos jardins. É claro, um dia nós vamos destruir o pavimento e deixar apenas ciclovias.

Nós praticamos respostas comunitárias para problemas com nossa subcultura, como, como lidar com abusos físicos e sexuais sem envolver a polícia. Nós aprendemos sobre trauma (quase sempre, do jeito mais difícil) e como lidar com ele. Nós criamos galinhas e patos e nós comemos dentes de leão e junco.

Nós vivemos , o máximo que pudermos, como se a civilização fosse uma tragédia do passado. E isso, mais que qualquer palavra escrita, será nossa propaganda. Porque sim, você pode viver desse jeito. E sim, é melhor. Uma refeição significa muito mais quando você cultiva ou consegue ela por si mesmo, e amigos são muito mais próximos quando são tratados como iguais. Ferais e de fraque, esses somos nós. Quando olhamos o mundo ao nosso redor, nós pegamos o que precisamos e compostamos o resto.

Entrando e Saindo da Prisão

Posted on 2025/12/09 - 2025/12/09 by holasoyp1x0

Originalmente publicado em NoTraceProject.

**Nota do No Trace Project:**

O autor deste texto, Klaus Viehmann, esteve envolvido em atividades de guerrilha na Alemanha nos anos de 1978, foi condenado por seu envolvimento no Movimento 2 de Junho – um grupo anarquista da Alemanha ocidental, ativo de 1972 a 1980 – e a uma série de atividades afins, incluindo roubos a banco e a libertação de prisioneiros, e foi sentenciado a 15 anos de prisão. Liberto em 1993. Ele escreveu este texto há dez anos atrás.

Bang. A porta da sua cela se fecha. Você sobreviveu a detenção, e está puto por não ter sido mais cuidadoso, você se preocupa que *eles* cheguem aos outros também, você se pergunta o que vai acontecer com o seu grupo e se um advogado já foi chamado – é claro, você não demonstra nada disso. A arma, os documentos falsos, suas roupas, tudo foi levado. O uniforme e os chinelos da prisão que eles jogaram para você são grandes de mais – talvez porque eles queiram que você entre em algum jogo mental idiota, talvez eles te considerem mesmo um perigoso “terrorista” – e o controle da sua própria aparência é tirado de suas mãos. Você olha ao redor, tentando entender mais sobre o lugar onde vai passar os próximos anos da sua vida.

Qual o sentido de falar sobre estratégias de sobrevivência hoje – anos depois? Faz sentido tentar organizar e resumir suas experiências? É, em qualquer escala, difícil transformá-las em palavras e frases. Ainda assim, para aqueles que vão passar tempo atrás das grades no futuro, elas podem vir a ser úteis. Além disso, já que as experiências de prisioneiros (políticos) não são nem extra-sociais nem ahistóricas, suas estratégias de sobrevivência podem também ajudar aqueles camaradas que experienciam suas vidas como algo mais do que uma forma mais ou menos coordenada de “passar tempo”. Para focar no que é essencial, para planejar sua vida cotidiana conscientemente, para usar suas energias de formas significativas – essas são todas qualidades úteis. Em todo lugar. Estratégias de sobrevivência são pessoais (por isso este texto também é, retoricamente, dirigido a você, não a uma terceira pessoa abstrata), mas não egoístas. Emancipação e libertação não acontecem no individual – elas são processos sócio-históricos. Nas palavras de Peter Brückner1, “Foi somente a burguesia tardia que transformou liberdade e independência em uma questão de ‘interiorização’”. Isso mostra os limites de todas estratégias de sobrevivência individuais. Sobrevivência só pode se transformar em vida através da libertação social. Mas esta é outra história, uma na qual prisões dificilmente vão desempenhar qualquer papel…

Na prisão, a necessidade de estratégias de sobrevivência é imediata; sem elas você está à mercê do inimigo. A prisão é um ambiente hostil, foi construída para ser assim, por pessoas que te enxergam como um inimigo. Não tenha ilusões sobre isso. Em prisões comuns – especialmente as mais antigas – as condições são insalubres e às vezes violentas, mas ao menos existem estruturas sociais. Em unidades de isolamento ou de segurança máxima, relações sociais são controladas, reguladas e abolidas. Isolamento significa a ausência de vida social  e da presença de si. Você não tem nada além de si mesmo, e precisa encontrar formas de lidar com isso. Isso é possível, mas não é possível saber de antemão, quem vai passar tranquilo pela prisão e quem não vai. Para alguém com pouca experiência de vida, auto-motivação política limitada, e planos futuros (possivelmente egoístas) incertos, será difícil. Uma biografia colorida na qual a prisão não marca o primeiro período de dificuldade, otimismo mesmo diante da situação terrível , e a habilidade de não se levar tão a sério, tudo isso ajuda. 

Ernst Bloch2 pode ter dito que “aqueles que adquirem seus conhecimentos somente dos livros deveriam ser postos em uma prateleira”, mas não é necessariamente uma tragédia se o conhecimento sobre certas coisas vier somente deste meio. Eu não experienciei tortura física, ameaças de morte, ou confinamento em celas sem luz. Descrições pessoais ou literárias de tais experiências, entretanto, podem te ajudar a entender melhor suas próprias experiências e a superá-las. 

As bases empíricas (digamos assim) deste texto são quinze anos de prisão. Sete anos – após 1978 – passados em isolamento ou com grupos pequenos de presos, cinco destes em unidades de segurança máxima (em Moabit e Bielefeld). De 1986 até minha soltura em 1993 , estive em uma cela de “segurança especial” em Werl, uma antiga prisão alemã. Eu tinha uma hora no pátio todos os dias, junto dos outros prisioneiros. Minhas visitas e correspondência eram monitoradas. Eu estava separado do meu advogado por uma janela com vidro à prova de balas. Raramente me era permitido comprar mais do que os itens básicos, não tinha visitas de outros prisioneiros em minha cela, banhava sozinho, me permitiam no máximo trinta livros, nada de rádio, e cinco ou seis assinaturas de jornais e revistas. As restrições de correio afrouxaram durante meus últimos anos lá, e de 1991 a 1993 me era permitido correr no pátio, duas vezes por semana. O que estou escrevendo aqui é a essência das minhas experiências. Durante os primeiros cinco ou seis anos de minha prisão, aprendi estratégias de sobrevivência que me permitiram passar pelos últimos dez. Estas são as experiências que listo aqui. 

De volta ao primeiro dia na prisão. Você não tem ideia do dia em que vai ser liberto. Cinco mil, quinhentos dias, são mais do que se pode abstrair, mesmo quando olho para o passado. O que você eventualmente vê é o que você precisa saber para sobreviver aqui e agora: Onde consigo material para leitura e escrita? Onde escondo mensagens secretas? Quando eu deveria esperar por uma busca na cela? Onde estão as celas dos meus camaradas? Há muito o que se fazer. Tédio é o menor dos seus problemas. Além disso, você saber porque está lá – uma vantagem enorme comparada com os que não tem ideia. Foi um desafio político radical que te levou até lá; um que você pode ver como “somente mais um passo” em uma vida na qual você escolheu se engajar em políticas militantes de esquerda. Claro, *eles* estavam um passo à sua frente a essa altura, mas a prisão era um terreno novo e eles ainda precisam provar que conseguiriam te quebrar. E é exatamente isso que você não deve permitir que façam – e em troca, isso define sua luta do primeiro até o último dia. 

Ter um objetivo e frentes de luta bem demarcadas te permite lutar melhor. Você não deve nunca permitir que eles te convençam de que não existem frentes bem delimitadas e que o “grande irmão” é seu amigo. A declaração de Ulrike Meinhof3 de que “a luta do povo contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento” resume isso perfeitamente. A habilidade de relembrar exige convicção política e/ou moral. Aqueles que perdem essa convicção se recusam a lembrar e se perdem em autorreflexão, auto piedade, e desorientação. Esse é o íngreme declínio onde o desespero pode se transformar em suicídio e negação política em traição. Confinamento em solitária e o controle do contrato social (cartas, visitas, notícias), também podem ser chamados de lavagem cerebral, com o objetivo de te fazer esquecer e te tornar egoísta. Resistência, solidariedade, responsabilidade, coletivismo, e uma personalidade correspondente devem desaparecer.

Prisões de segurança máxima também seguem o princípio capitalista-burguês de que “todos são seu melhor amigo”. Aqueles que adotam este princípio, não sobrevivem – eles se tornam outras pessoas. Não porque cresceram e atingiram emancipação, mas porque regrediram e dessocializaram. As consequências são despolitização e desintegração da personalidade. A verdadeira sobrevivência significa experienciar a si mesmo como um ser humano que é social, politicamente, mentalmente e emocionalmente autônomo e responsável por si. Isso exige romper seu isolamento e encontrar pontos de referência fora de sua cela. Aqueles que não conseguem transcender seu próprio aprisionamento e que não são capazes de entendê-lo num contexto mais amplo serão incapazes de encontrar significado em sua árdua situação. Quanto mais estreito seu horizonte, mais paralisante e desesperador seus medos pessoais serão. Jean Améry4 uma vez descreveu esses “pontos de referências” em conexão com a mais extrema das experiências, a de Auschwitz:

“‘Você precisa entender’, um judeu fiél me disse uma vez, ‘que a sua inteligência e educação são inúteis aqui. Eu, entretanto, eu sei que Deus será minha vingança.’ Um camarada alemão de esquerda, no campo desde 1933, expressou isso de forma menos polida:’Aí está você, seu burguês sabe-tudo, e você se arrepia quando vê um uniforme da SS. Nós não trememos, mesmo que pereçamos aqui, miseravelmente, nós sabemos que os camaradas que virão depois de nós, vão fuzilar todos eles’. Estes dois homens transcenderam a si mesmos e se projetaram no futuro. […] Suas crenças ou ideologias os deram um ponto estável no mundo, o que os permitiu verem a queda do Estado da SS.” 

Günter Anders5 chamou isso de “o paradoxo da desesperança criando esperança”.

No mundo bem menos perigoso das prisões de alta segurança da Alemanha Ocidental, é raro que sua sobrevivência física seja ameaçada. Há comida o suficiente, roupas, calor, e higiene – uma diferença enorme das condições de, por exemplo, prisões militares na América Latina. Apesar de tanta diferença, entretanto, você precisa descobrir como sobreviver com a sua personalidade intacta. Como você se protege? Como você organiza sua defesa? E quando é o momento de atacar? O primeiro impulso, certamente, é dizer: *Sempre!* Mas agir politicamente significa entender balanços de poder e as consequências de suas ações – na prisão não é diferente. Por exemplo, não tem sentido destruir a sua cela se ninguém no mundo exterior vai saber a respeito. Pode ser divertido, certamente, mas quase certamente isso vai custar tempo na solitária e outras repercussões. Entretanto, quando em 1980 os primeiros prisioneiros deveriam ser transferidos para a recém-construída prisão de segurança máxima em Moabit, fazia sentido barricar a si mesmo atrás dos móveis destruídos da sua cela. Este era um sinal de que você se recusava a voluntariamente ir para esta unidade, que você se recusava a aceitar uma piora das suas condições sem resistência. Se você não demonstra tal resistência, isso vai fazer com que *eles* fiquem super confiantes e você vai se sentir vulnerável em sua nova localização. No caso da Moabit, camaradas protestaram do lado de fora, houveram ações militantes, e a cobertura midiática foi grande. Isso foi extremamente útil para sobrevivermos às condições de segurança máxima.

As greves de fome dos 1970 e 1980 foram – apesar das críticas de circunstâncias específicas e certas exigências – “estratégias de sobrevivência” para prisioneiros em isolamento e unidades de segurança máxima. As campanhas de solidariedade que aconteceram após as mortes de Holger Meins e Sigurd Debus6 – mortos por negligência médica e alimentação forçada – definitivamente ajudaram na sobrevivência de camaradas aprisionados. Aqui temos um exemplo de estratégia de sobrevivência baseada na minha própria experiência: Em 1983, as autoridades queriam implementar um novo modelo que isolava pequenos grupos na unidade de segurança máxima em Bielefeld. Era planejada para suplementar a arquitetura de segurança máxima com um regime extremamente rígido: por ter uma pia suja, você perderia três dias de banho de sol, desligar a televisão que passava programas imbecis pré-selecionados para a prisão, significava confinamento em sua cela por duas semanas, etc. Programas de trabalho forçado foram adicionados a isso: montar trezentos alfinetes em uma jornada de trabalho de oito horas, cinco dias por semana, sobre vigilância de câmeras de circuito interno, com medidas disciplinares para baixo desempenho. A aplicação de atividades repetitivas e alienantes é essencial em todo condicionamento psicológico, uma forma clássica de lavagem cerebral direcionada ao corpo. Montar alfinetes por anos é como uma lenta morte cerebral. A punição por recusar-se a trabalhar era a solitária. Já que uma greve de fome (possivelmente durando várias semanas) é difícil sobre tais circunstâncias, e já que tudo parecia estar comprometido de qualquer forma, a única ferramenta disponível era a greve de fome. Greves de sede não duram muito – de um jeito ou de outro. Pressão pública precisa se se acumular rápido, e essa pressão precisa se tornar mais forte do que, nesse caso, o interesse *deles* em implementar um novo modelo de trabalho forçado em prisões de segurança máxima. A estratégia de sobrevivência neste caso era os desafiar a explicar porque três mil alfinetes por dia valiam a morte de um ser humano. Além disso, havia um entendimento não verbalizado, mas subentendido de que se eles implementassem trabalho forçado dentro de unidades de segurança máxima, ataques ao sistema de trabalho prisional se tornariam tão fortes que seria impossível manter o trabalho prisional mesmo em unidades regulares, o que teria causado uma considerável perda de renda. *Eles* cederam depois de cinco dias, tendo sofrido danos patrimoniais significativos: a Revolutionäre Zellen7 jogaram bombas no escritório da prisão e nos escritórios de duas empresas lucrando com o trabalho dos prisioneiros. Além disso haviam as manifestações, uma rebelião numa unidade de segurança máxima em Köln-Ossendorf, e cobertura mediática crítica. Desde então, nenhuma nova tentativa de tentar implementar trabalho forçado foi feita em unidades de segurança máxima. 

Na maior parte do tempo, entretanto, a vida de um prisioneiro é menos heroica. Afinal de contas, o inimigo natural do herói é a rotina diária. Em todo caso, aqui vai um exemplo, uma estratégiazinha de sobrevivência: Se sua requisição para ser atendido pelo dentista da prisão continua “ignorada” por dois dias, você pode colar ela na latrina que pode ser desmontada e, na próxima oportunidade, colada na frente da sua cela  – para que não seja mais “ignorada”. Isso vai levar um pouco de dinheiro descontado da conta solidária e a uma medida disciplinar, mas você vai ao dentista. Esse tipo de ação funciona porque a recusa ao acesso a serviços odontológicos se torna oficial com o dano à propriedade, que precisa ser registrada. Isso significa que você tem a opção de preencher uma denúncia legal – algo que a administração da prisão não quer lidar em casos tão mesquinhos.

É claro que você não pode chacoalhar as barras da prisão, ou chutar a porta da sua cela o dia todo. Você não vai conseguir manter o fôlego por muito tempo. Mesmo assim, não poder arrebentar grades ou arrombar portas não significa que você precisa aceitar o regime da prisão e ser forçado a suas normas que são bem mais estritas que as de fora. Você só é capaz de manter sua individualidade resistindo a essas normas. Viva ou seja vivido. Aceitar as normas significa o fim do seu desenvolvimento. Você perde interesse no contato social e recusa a aceitar as circunstâncias e as mudanças das situações. Adaptar-se ao regime da prisão significa esquecer a força e o sucesso individual. A adaptação se auto reproduz infinitamente, por você temer tanto o regime atual quanto as consequências pessoais da sua resistência. Você perde as esperanças. Eventualmente, aceitando as más decisões até abraçar as regras. Não só o otimismo depende de atividade, resistência também. Ser letárgico te deixa insensível. Meramente pensar sobre resistência (o que os peões nazistas chamavam de “migração interior” ) não é uma estratégia de sobrevivência; é cinismo: você pensa uma coisa, mas faz outras, ou você se recusa a considerar as consequências dos seus pensamentos.

A práxis da resistência imaginada tem um nome: comportamento esperado. Quando você é passivo, internaliza o medo e a desesperança. Isso cria – e reproduz – o prisioneiro obediente, neurótico. Esse prisioneiro sonha acordado sobre fugas espetaculares ou que inesperadas anistias estão dentro da categoria sancionada pelas autoridades de, “Dê-nos-nossa-ilusão-diária”. Dentro da “vida falsa” da prisão, não pode haver modo correto de agir. Entretanto, decisões fundamentais sobre suas ações podem ser feitas – decisões que são parte importante das suas estratégias de sobrevivência, Elas não são dogmáticas. É errado desistir? Os velhos princípios ainda são válidos? Você precisa entender isso; você sempre tem que se convencer de novo e de novo. Suas respostas não podem ser meros hábitos. Você precisa ser curioso e aberto sobre as experiências e perspectivas de outros, e você precisa saber apreciar um conselho amigo.

Tomar boas decisões baseadas nas suas memórias e seu conhecimento, enquanto aceita as contradições e percebe a mudança de realidade social e política, em outras palavras, pensar dialeticamente, é uma base sólida para sua própria convicção. Raciocínio rígido e inflexível só pode gerar um exterior que não resiste nem a menor das rachaduras. Se um detalhe parece estranho, tudo mais pareceestranho

… É por isso que rachaduras tão pequenas às vezes podem levar aqueles que antes professavam “150 %” de convicção, desabar. A próxima coisa que eles fazem é procurar por um novo ponto de vista. Não necessariamente um que faça muito sentido, mas um que pode adiantar sua liberdade. Veja o exemplo de  Horst Mahler8: depois de muita ladainha política, ele foi para a direita depois de estudar extensivamente a literatura relevante, que no fim dos 1970 chegou a ousada conclusão que Marx não teria compreendido Hegel e que todos deveríamos reconsiderar nosso entendimento do Estado. Em uma entrevista para Spiegel9, ele conseguiu superar até o ministro do interior em seus elogios às instituições estatais. Sua sentença foi comutada.

É claro, você vai se desenvolver politicamente, refletir sobre a práxis política da qual participava, etc. Seu pensamento dialético vai fortalecer sua convicção de que exploração, opressão, pobreza e guerra não vão desaparecer sem a derrubada da ordem vigente. É isso que vai te separar pra sempre do ministro do interior.

A questão de se é “falso desistir” pode ser posta em termos simples: Você quer conversar com alguém que te tranca durante o dia e que está pronto para te matar se você tentar escapar durante a noite? Você quer conversar com o chefe da prisão que proíbe qualquer comemoração daqueles que em 1943, foram mandados para morte em Mauthausen pelo mesmo pátio que você caminha todos os dias? Ou você quer falar com a pessoa que faz treinamento militar como “capitão da reserva”? Você quer assinar um contrato com o Bundeskriminalamt10?, uma organização que mantém o apartamento chamado “TE” para “terrorismo” (ex “Sicherheitsgruppe Bonn” e estabelecida por ex oficiais da Chefia de Segurança do Reich Nazista [Reichssicherheitshauptamt]) que espia nossos visitantes e esteva envolvida na morte de Wolfgang Grams11? Você quer baixar sua cabeça para eles em troca de nada mais que umas poucas vantagens? A “razão” que eles exigem de você só gera loucura e traição, e o “senso comum” que eles evocam “é o homenzinho de terno cinza que nunca comete um erro de matemática – mas o dinheiro que ele está contando é sempre dos outros” (Raymond Chandler).

“É doce mas perigoso, esperar pelas cartas…

passar insone até a manhã e encarar o forro

Esqueça sua idade, atenção às tardes de primavera

É ruim sonhar com rosas e jardins, mas é bom pensar em montanhas e oceanos

 Meu conselho pra você seria: leia e escreva o máximo que puder – e ignore o espelho

As palavras de Nâzim Hikemet12 expressam puramente estratégias de sobrevivência. Cartas são valiosas brechas nos muros da prisão, mas focar-se em recebê-las te tornam dependente. Fique feliz quando elas chegarem – procure por algo mais para te deixar feliz quando elas não chegarem. Ficar acordado até de manhã e encarar o teto não muda nada. Ler e escrever até de manhã, entretanto, significa que você está ativo. Esquecer sua idade e o espelho fazem desaparecer o medo de estar deixando a vida passar. As belas tardes da primavera podem causar uma saudade terrível do mundo exterior. Sonhar com rosas e jardins te acalmam de uma maneira que você não deveria. Pensar em montanhas selvagens e mares põe seus problemas em perspectiva. Ler e escrever o máximo possível é o conselho mais importante; no longo prazo, esté o requisito mais importante para cada uma das estratégias de sobrevivência na prisão.

Livros podem te transportar para um mundo diferente quando o que você está parecer insuportável. Isso tem um valor inestimável no confinamento da solitária. Além disso, te ajuda nas estratégias de sobrevivência de longo prazo como interagir com seus pensamentos e pessoas através da escrita e da leitura. Pode ser difícil contra o cenário da exaustiva monotonia da prisão, mas essas são as precondições do seu engajamento. Interagir significa novas relações sociais e novos pensamentos que vão te manter vivo. Ninguém quer ouvir as mesmas histórias de novo e de novo, ano após ano, sobre tiroteios ou verdades eternas ou seus problemas lá dentro. O Exército da Salvação pode querer ouvir seus lamentos, mas ninguém que te veja como um sujeito político vai querer.

Uma vez que você tenha conseguido resistir à repressão durante seus primeiros meses e anos de prisão, o tempo se torna seu principal inimigo. Fisicamente, você pode se manter saudável – você pode se exercitar mesmo numa cela, e cigarros, café, e doces são caros de mais de qualquer jeito. O puro tamanho dos anos, entretanto, afeta as possibilidades de se criar uma trajetória de vida, de experienciar a vida como um todo – algo que cria uma identidade. É difícil de entender seus próprios padrões como coerentes e significativos. Do lado de fora, você pode estar relativamente certo no entendimento de que você é uma pessoa que – apesar do desenvolvimento, é claro – é sempre a mesma pessoa, com seus interesses, ideias, argumentos, e autoconfiança. Agora, você precisa sempre conferir sua personalidade, sua consciência, e sua habilidade de pensar e ver se isso de algum modo não mudou sem você perceber. Sem uma rigorosa auto-reflexão sobre seus pensamentos, emoções, e ações, você não pode ter certeza de que continua pensando e agindo racionalmente – algo que antes, você podia ter como certo.

“Você pode entender as coisas, mudando elas”, Bertolt Brecht13 disse dialeticamente, e essa é a praxis da realização que Nâzim Hikmet descreve acima. Ler Marx e Gramsci, Rosa Luxemburgo e Assata Shakur, Malcolm X e Primo Levi, Vera Figner e Peter Weiss14, ou ler sobre a história da Guerra dos Camponeses ou dos Panteras Negras ou sobre internacionalismo, ciências naturais, história da arte, ou jogos de xadrez – nada disso rompe as barras da sua cela, mas te ajuda a preservar sua habilidade de pensar e debater. No pior cenário, a Bíblia é o único livro permitido na solitária: “Para abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos, e do cárcere os que jazem em trevas” (Isaías 42:7).

Ler é uma troca ativa de pensamentos com os outros. A linguagem é consciência prática. Escrever é produzir. Atividade intelectual que não resulta em pensamentos comunicáveis, isso é, em fala ou escrita (para outros), se transforma, no longo prazo – não somente na prisão – em uma tarefa sisífica. Apesar de você não viver e pensar em uma montanha lendária, mas em uma situação social específica. Neste caso: na prisão. Você deveria estar atento ao impacto que as contradições da sua situação tem em seus pensamentos. Certos entendimentos políticos podem de fato vir mais facilmente com alguma distância da agitação e confusão da vida cotidiana, mas você deve ter muito cuidado com todas as avaliações que exigem experiências sensoriais… De todo modo, é a conexão das suas reflexões teóricas para os problemas atuais da esquerda, isso é, os problemas dos seus camaradas e amigos do lado de fora, que dão ao seu conhecimento e escrita um sentido prático – algo que pode te ajudar a lidar com os muitos anos por virem.

Bang. A porta se fecha novamente. Dessa vez, entretanto, você está do lado de fora. Isso acontece de forma menos surpreendente que sua prisão e é significativamente mais agradável. Mas é similarmente confuso. Você gira e gira como um carrinho de brinquedo. Leva um tempo – e você bate contra algumas paredes – até que você consiga parar e seja capaz de realmente olhar a sua volta. Suas estratégias de sobrevivência te ajudaram a lidar com um ambiente que não é apto para a vida humana. Agora todas essas estratégias que você internalizou vão te atrapalhar. A experiência da prisão te ensina a manter o que é importante para você, não revelar nada, não se deixar vulnerável. No lado de fora isso se parece – para dizer o mínimo – com insensibilidade. Amigos não conseguem entender sua (ausência de) reações. Outros – que certamente não são seus amigos – elevam “ex-prisioneiros” em pedestais que são, na verdade, jaulas. Passar um tempo na prisão não é construtivo, nem um programa político. A inevitável habilidade adquirida de tomar decisões por si mesmo pode te levar a querer evitar discussões coletivas desafiadoras. Não querer depender de nada nem ninguém complica suas relações. A habilidade de ficar sozinho se transforma em desejo de sê-lo. Sua resistência a normas e sua luta para se manter como indivíduo agora te tornam cético a  coletividades. Após a gravidade da experiência na prisão, disputas dentro da esquerda naturalmente parecem irrelevantes ou mesmo ridículas – mas quando expõe isso, você parece arrogante. É difícil ceder controle a suas emoções uma vez que você trabalhou tão duro para controlá-las para que *eles* não fossem capazes de usá-las contra você. Amor, ódio, paixão – tudo está guardado em um cofre intelectual, e você olha cuidadosamente ao redor antes de deixar qualquer coisa entrar ou sair. Certo, assim você evita a tristeza. Mas também evita a felicidade. Com o tempo, isso fica menos intenso. As coisas ficam mais fáceis. Ainda assim, o que um ex-Tupamaro15 descreveu com as  seguintes palavras vão te acompanhar:  

“Você percebe que ninguém […] consegue viver confortável em uma mentira, sem acabar com nojo de si mesmo, pois você acredita que aqueles que entendem mas vivem apáticos no conforto irão quebrar”16.

De todo modo, há vida após a sobrevivência, e vale a pena vivê-la. O comentário de Sean McGuffin17 de que “experiência e malícia sempre vão vencer a juventude e a força” é tão útil para você quanto os níveis de persistência, paciência, e resiliência que você só pode adquirir como prisioneiro. Você ainda está aqui, e você continua curioso.

  1. Nota do NoTrace Project (N.T.P.) Peter Brückner (1922-82) foi um psicólogo popular entre os movimentos de protesto dos anos 60. ↩︎
  2. Nota do NoTrace Project (N.T.P.) Ernst Bloch (1885-1977) foi um filósofo marxista alemão. ↩︎
  3. Nota do NoTrace Project (N.T.P.)Ulrike Meinhof (1934-76) foi um jornalista alemão de esquerda e membro-fundador do Red Army Faction (RAF), um grupo radical de esquerda fundado em 1970. ↩︎
  4. Nota do NoTrace Project Jean Améry (1912-78) foi um autor austríaco, combatente da resistência, e sobrevivente de Auschwitz. ↩︎
  5. Nota do NoTrace Project (N.T.P.) Günther Anders (1902-92) foi um filósofo alemão. ↩︎
  6. Nota do NoTrace Project (N.T.P.) Holger Meins e Sigurd Debus foram quadros aprisionados da RAF. Ambos morreraam na prisão em decorrência de uma greve de fome. ↩︎
  7. Nota do NoTrace Project (N.T.P.) O Revolutionäre Zellen (RZ, *Células Revolucionárias*) foi um grupo alemão de esquerda radical ativo de 1972 a 1995. ↩︎
  8. Nota do NoTrace Project (N.T.P.) Horst Mahler (1936-) foi membro fundado da RAF que depois se tornou maoísta antes de se converter ao neonazismo. ↩︎
  9. Nota do NoTrace Project (N.T.P.) Der Spiegel é uma revista semanal alemã. ↩︎
  10. Nota do NoTrace Project (N.T.P.) A Bundeskriminalamt (BKA, *Divisão da Poícia Federal*) é a ageência de polícia investigativa da Alemanha. ↩︎
  11. Nota do NoTrace Project (N.T.P.) Wolfgang Grams (1953-93), um membro da RAF, morreu durante um tiroteio na estação de trem de Bad Kleinen, uma cidadezinha em Mecklenburg-Vorpommern. ↩︎
  12. Nota do NoTrace Project (N.T.P.) Nâzım Hikmet (1902-63) foi um poeta e comunista turco. ↩︎
  13. Nota do NoTrace Project (N.T.P.) Bertolt Brecht (1898-1956) foi um dramaturgo e poeta alemão. ↩︎
  14. Nota do NoTrace Project (N.T.P.) Rosa Luxemburgo (1871-1919) foi uma polonesa naturalizada na Alemanha, marxista e ativista anti-guerra durante a PrimeiraGuerra Mundial. Assata Shakur (1947-) é um ativistapolítico que foi quadro do Black Liberation Army. Primo Levi (1919-87) foi um autor italiano, artisan, e sobrevivente de Auschwitz. Vera Figner (1852-1942) foi um russo social-revolucionário que passou vinte anos na prisão dado seu envolvimento no assassinato do Tsar Alexandre II. Peter Weiss (1916-82) foi um autor comunista alemão. ↩︎
  15. Nota do NoTrace Project (N.T.P.) Os Tupamaros foram um grupo de guerrilha urbana marxista-leninista ativo no Uruguai nos anos 60 e 70. ↩︎
  16. Nota do NoTrace Project (N.T.P.) A citação é atribuída a David Cámpora no livro *Los manos en el fuego* de Ernesto González Bermejo. ↩︎
  17. Nota do NoTrace Project (N.T.P.) Sean McGuffin (1942-2002) foi um escritor irlandês preso nos anos 70 por sua suposta ligação com o Exército Republicano Irlandês (IRA).. ↩︎

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