Skip to content

hiperobjeto

  • Sample Page

Nossos Vizinhos em Minneapolis

Posted on 2026/02/25 - 2026/02/25 by holasoyp1x0

por Margaret Killjoy, publicado originalmente em 26 de Janeiro de 2026..

Muito do que você precisa saber sobre Minneapolis está evidente na Praça George Floyd. Lindas estátuas de gigantescos punhos de ferro se libertando do chão, coroados pelo vermelho, o preto e o verde das bandeiras do pan-Africanismo. Grafites com homenagens cobrem toda superfície à vista. A parada de ônibus foi transformada em uma loja grátis, onde há roupas para quem quiser pegá-las. A prefeitura tem planos de transformar a área em um memorial oficial, mas ele já é, e tem sido por anos. 

As pessoas realizam algo, e o governo se apressa para acompanhá-las. É assim que acontece, em todo lugar.

Mas Minneapolis, em especial, sabe o que significa rememorar os mortos. Ela sabe que você luta em memória e pela memória das pessoas.

Eu passei quatro noites e três dias em Minneapolis semana passada, quando fui para cobrir as redes de resposta rápida e apoio mútuo com as quais aparentemente a cidade toda está envolvida. Eu encontrei com meu colega James Stout (do podcast It Could Happen Here) e estava feliz por estar com um jornalista de conflito experiente.

Nós passamos a maior parte do nosso tempo acordados conversando com o máximo de pessoas possível e tentando entender como lidar com o frio. Estava tão frio que a chave da minha caminhonete parou de funcionar na porta e eu tive que deixar ela aberta. Estava tão frio que a bateria novinha não ligava o motor e uma noite nós tivemos que levar a bateria para dentro de casa. Estava tão frio que meu limpador de parabrisa congelou quando atingimos -20 graus. Estava tão frio que metade dos nossos eletrônicos pararam de funcionar: os gravadores de áudio de James e até seu celular simplesmente desligaram.

Mas não estava frio o suficiente para manter os minessotanos em casa. Não estava frio à ponto das pessoas não comparecerem, em dezenas ou centenas de milhares, para encher as ruas na greve geral. Não estava frio o suficiente para as pessoas não saírem de suas casas de pijamas e crocs quando elas viam atividade do lado de fora, em caso delas poderem fazer qualquer coisa para defender suas comunidades do ICE. Não estava frio o suficiente para as pessoas não resistirem em diferentes níveis a ocupação de sequestradores profissionais. Eu não estou sendo hiperbólico, sobre o frio, os pijamas ou os sequestradores.

O resumo do que eu vi é esse: uns poucos milhares de federais estão agora mesmo, ocupando Minnesota. Eles estão em Minneapolis, St. Paul, nos subúrbios, e até em algumas cidades menores. Ninguém quer eles por lá  — eu nunca vi uma comunidade tão unida quanto as pessoas das Cidades Gêmeas.

O ICE está lá para sequestrar pessoas pretas e marrons. Eles não são discretos quanto ao racismo  — até a polícia local reclamou que todos seus funcionários não-brancos, quando estavam fora de serviço, eram assediados por agentes federais. Mascarados. Homens de máscara, sem identificação alguma, estão simplesmente sequestrando pessoas em seus carros, as jogando em SUVs sem identificação, e fugindo com eles, normalmente, as vítimas nunca mais veem seus entes queridos novamente. Os carros das vítimas são deixados abandonados nas ruas, às vezes ainda ligados, às vezes ainda em movimento.

Em resposta, muitas pessoas vulneráveis essencialmente entraram em lockdown. Há famílias que não podem deixar suas casas. Outras pessoas — amigos, familiares, e vizinhos — estão cuidando deles. As redes que cuidam destas pessoas são com certeza as maiores, mais organizadas e mais bem-sucedidas que eu já vi, e elas são completamente descentralizadas. Não há um grupo ou organização central que seja responsável pelo sucesso. São só pessoas. Pessoas que se organizaram..

Há dois lados nesta luta: resposta rápida e apoio mútuo. As redes de resposta rápida se organizam para identificar e rastrear os veículos e agentes do ICE, e impedir sequestros em andamento. Redes de apoio mútuo se organizam para levar comida, cuidados médicos, caronas, visitas ao veterinários, companhia… qualquer coisa que as pessoas afetadas precisem. Estas são duas redes separadas. O lado do apoio mútuo é muito mais discreto na sua organização, é claro, pois cuida de pessoas que não podem deixar suas casas sem serem sequestradas.

É estranho perceber que o trabalho que as pessoas podem fazer publicamente é assediar agentes federais, mas o trabalho que precisa ser feito em segredo é… alimentar pessoas.

É difícil ter um senso de escala destas redes, parcialmente por não haver uma organização central, especialmente entre as redes de apoio mútuo. Estas redes cuidam de, no mínimo, dezenas de milhares de pessoas.

A rede de resposta rápida é um pouco mais visível. Quando um veículo do ICE é descoberto, as pessoas o seguem, buzinando e soprando apitos. 

De longe, eu preciso admitir que estava cética quando a eficácia de apitos e buzinas. Após uns poucos dias no local, eu não tenho mais dúvidas. Eu perguntei para várias pessoas: “e funciona?” e todas elas tinham um olhar de tristeza em seus rostos enquanto pensavam sobre todas as vezes em que elas falharam em impedir um sequestro. Mas todos eles haviam tido sucesso em impedir vários sequestros.

Basicamente, os agentes do ICE parecem recuar assim que são superados em número. Eles sabem que não são vistos como uma força de segurança operando legitimamente na cidade, então eles trabalham rápido e em segredo. Já que os sequestros acontecem rapidamente — geralmente levando as pessoas em dois ou três minutos — a resposta precisa ser ainda mais rápida. E funciona, pois quando as pessoas ouvem apitos e buzinas, elas começam a procurar. Elas saem de suas casas.

Funciona pois todo mundo sabe o que está acontecendo é errado, e todos estão dispostos a arriscar suas vidas para proteger outras pessoas. 

De novo e de novo, o ICE tentou sequestrar alguém, só para fugir assustado por minessotanos de pijamas e crocs. O ICE vai disparar um pouco de gás lacrimogêneo, usar o spray de pimenta — e eventualmente assassinar alguém — e depois vai correr.

São tantos clichês que eu precisei dançar ao redor enquanto escrevia tudo isso, mas alguns são apenas incontornáveis. Anti-ICE é o lado do amor e da coragem, e o ICE é o lado do ódio e do medo.

Na minha última noite na cidade fiquei acordada até tarde, conversando com uma casa cheia de queers — a maioria deles judeus — sobre suas experiências nos últimos dois meses. Duas pessoas me contaram uma história que vou levar sempre comigo. É uma história chocantemente comum.

O assassinato de Renee Good não fez as pessoas pararem de monitorar o ICE. Naquele mesmo dia, umas poucas horas antes, em outro lugar da cidade, duas pessoas queer estavam em um carro em um estacionamento, monitorando o ICE. O ICE podia os contornar, mas queria que eles saíssem do caminho. As duas pessoas no carro não saíram. 

Então o ICE arrebentou as janelas do carro e os atacou com spray de pimenta (mais tarde, debochando que usaram o “do bom”, nos dois). O ICE começou a espancá-los.

Eles se deram as mãos

.

Os dois relembraram esta história cada um a seu jeito, escutando um ao outro conforme eles reviviam o que deve ser um dos piores dias de suas vidas, mas os dois recordaram, e falaram tão rapidamente, sobre darem as mãos. Cegos pelo spray de pimenta, com vidro quebrado por todo lado, enquanto punhos enluvados os espancavam, eles se seguraram um no outro.

Ambos são cidadãos, então, horas depois, sem tratamento médico mas cheios de xingamentos homofóbicos, eles foram liberados sem nenhuma acusação.

Quando voltaram para casa, o carro deles estava lá. Outro observador entrou em um carro coberto de cacos de vidro e spray de pimenta e o dirigiu até a casa. Eles não sabem nem qual dos observadores fez isso por eles, pois quem quer que tenha feito isso não ficou para ouvir agradecimentos. Provavelmente, quem recuperou o carro, voltou para seguir tentando ajudar mais pessoas.

Eu perguntei às pessoas em Minneapolis o que elas queriam que outras pessoas soubessem sobre a luta delas, e uma pessoa respondeu: fale para as pessoas, também, sobre a beleza daqui. Os atos mais horrendos do estado capturam as manchetes — e por bons motivos — mas há uma beleza específica no que está acontecendo aqui

Quando eu pergunto às pessoas de onde tudo isso veio, a resposta nunca é uma organização, rede ou aliança específica. Organizações, redes e alianças são parte disso, em absoluto. Mas o cerne da resistência é simplesmente boa vizinhança.

Na sexta-feira da greve geral, o dia mais frio de Minnesota desde 2019, minha caminhonete não dava a partida. Nós juntamos todas nossas coisas para irmos à ação direta para fechar o ICE, mas meu motor não dava a partida. Minha bateria novinha não tinha energia o suficiente para fazer o óleo gelado se mover, nem com o booster de bateria.

Um vizinho veio, quase vestido para o clima, para oferecer ajuda. Ele não era um mecânico, apenas viu pessoas paradas e resolveu ver como estávamos. Se nada mais ajudasse, ele ofereceu, nós podíamos nos aquecer em sua casa.

Três pessoas diferentes apareceram para nos resgatar, em dois veículos diferentes. Alguém que conhecemos no dia anterior nos ofereceu um carro emprestado. Um mecânico que eu não conhecia dirigiu até nós para nos informar sobre nossas opções. No fim, com uma combinação de aquecedores de mãos, um secador de cabelo, e cabos, nós conseguimos dar a partida na caminhonete.

Se existem problemas que podem ser resolvidos com aquecedores de mãos, as pessoas de Minneapoli vão resolvê-los. Em todo lugar que fomos, havia pessoas distribuindo aquecedores para as mãos e para os pés.

Mas este espírito de “se seu carro quebrar pelo frio, desconhecidos vão te salvar” se apresentou para mim em múltiplas pessoas como o espírito que anima a resistência ao ICE. Algumas pessoas estão presas em suas casas, então outras pessoas dão o máximo de si para ajudá-las, elas tendo ou não experiência o suficiente, elas estando prontas ou não.

Eu não conseguiria enfatizar o quanto estas redes são descentralizadas, e todos com quem eu falei estão bem cientes das limitações dessa descentralização e também bastante cientes do fato de que nada seria possível se ela fosse toda controlada por essa ou aquela org essa ou aquele ong, essa ou aquela posição ideológica. (Apesar de que, uma história de organização anarquista certamente está entre os ingredientes que fizeram esse caldo em específico ser possível. Que grande metáfora que eu inventei. Eu sou tão boa no meu trabalho.)

Tanto os esforços de resposta rápida quanto os de apoio mútuo são hiperlocais. Não existe uma rede que cubra a cidade toda, quase não existem redes que cobrem um bairro inteiro. As pessoas estão se organizando com pessoas da sua quadra, ou de umas poucas quadras. Isso não foi apresentado como uma limitação, mas como uma vantagem. Isso era uma das principais coisas que as pessoas queriam reforçar, quando eu falasse em outras cidades sobre como se organizarem: descentralização é uma força e precisamos nos apoiar nela.

Redes descentralizadas são mais difíceis de se infiltrar e mais difíceis de se destruir. Esse movimento não é sem líderes, mas cheio de líderes, e não existe um punhado de pessoas que podem ser presas para barrar o movimento. Como ela é feita de tantas redes interconectadas, mesmo que um agente malicioso conseguisse barrar uma peça individual da rede (ao, por exemplo, soterrar alguma organização específica com detalhes e a impedir de realizar seu trabalho), a disrupção seria mínima. Como a rede é democrática (não no sentido de que as pessoas envolvidas votam nas decisões, mas no sentido que é mantido pelas  próprias pessoas que são parte dela e não por alguma vanguarda de líderes), as pessoas só são ouvidas quando suas ideias de fato beneficiam as pessoas

Assim, movimentos democráticos são inerentemente mais convidativos para uma gama maior de pessoas, pois os indivíduos que se envolvem podem ser parte da construção da cultura daquele movimento. Uma pessoa que entre no looping do Signal para se manter informado sobre a atividade do ICE em seu bairro não está necessariamente concordando com essa ou aquela cultura ou ideologia política.

A natureza hiperlocal das redes de resposta rápida é na verdade uma adaptação. Quando o ICE havia recém chegado, eles realizavam invasões imensas com centenas de agentes que duravam horas. Havia tempo para as pessoas se reunirem, e socorristas podiam vir de uma área comparativamente maior. Logo, o ICE aprendeu que não podia operar às claras, daí mudaram para os sequestros rápidos. Agora eles simplesmente são racistas com as pessoas nas ruas (ou escaneiam placas de veículos para descobrirem nomes) e sequestrá-los, em um processo que às vezes dura apenas 2-3 minutos. Você precisa estar a poucas quadras de distância para poder observar ou interferir, então a organização acontece quadra a quadra.

Esse estilo de organização funciona pois a imensa maioria das pessoas na cidade se opõem muito ativamente a verem seus vizinhos serem sequestrados. Não faltam pessoas dispostas a gritar com o ICE.

Como não há uma autoridade rígida dentro da organização contra o ICE, ela permanece imprevisível para seus inimigos. Alguns observadores têm melhores chances de atrapalhar o ICE que outros. Algumas pessoas que seguem o ICE fazem isso de forma calma, outras agressivamente. As pessoas são incentivadas a  aceitarem suas próprias noções de risco e tomarem suas próprias decisões, o que significa que o ICE não pode desenvolver um protocolo único de como responder aos observadores.

Eu realmente preciso enfatizar a parte do “cheio de líderes”. Não estamos falando de caos e aleatoriedade desorganizada. Estamos falando de, bem, caos e aleatoriedade organizada. As pessoas estão constantemente se adaptando às circunstâncias, mudando protocolos e táticas dia após dia, às vezes de hora em hora. Eu nunca vi uma comunidade tão ágil, deste tamanho, em lugar nenhum.

Mais de uma pessoa me disse: o que você precisa saber sobre organizar redes de resposta rápida é que elas precisam ser descentralizadas. Elas precisam maximizar a autonomia de seus participantes. Elas precisam ser cheias de líderes. Nada disso funciona se for de cima para baixo.

Quando eu perguntei de onde esse movimento veio, porque Minneapolis parece ser tão capaz de proteger sua população, todos com quem falei apontaram para diferentes raízes, apesar de nenhum dizer que havia apenas uma raiz.

Um quadro da American Indian Movement (AIM) que cresceu nesse movimento falou sobre as patrulhas que as pessoas indígenas criaram no fim dos anos 60, e antes disso da solidariedade entre comunidades negras no norte de Minneapolis e comunidades indígenas do sul de Minneapolis.

Outro organizador do bairro Powderhorn me falou sobre a comunidade artística daquela região, em especial dos desfiles de Primeiro de Maio que vem acontecendo todo ano desde o meio dos anos 70. “As pessoas só aparecem no Powderhorn Park e fazem fantoches,”. O desfile é auto-organizado, auto-dirigido, e lendário. 

Outra pessoa me falou sobre os piqueniques coletivos e churrascos. Ano passado, com a crise da ascensão do fascismo, mais pessoas passaram a fazer eventos para seus vizinhos, só para se conhecerem. 

Muitas me falaram sobre o levante de George Floyd de 2020 também, sobre as redes de comunidade que as pessoas criaram na época. Não é como se as pessoas criassem redes e as mantivessem super tivas, mas conexões podem ficar dormentes por anos e então ressurgir. (Como sementes? Estamos falando sobre sementes e raízes? Eu sou tão boa com metáforas.)

Ao contrário do que os filmes de apocalipse te dizem, as pessoas se ajudam durante crises. Pense sobre esperar um ônibus. Em algumas culturas, desconhecidos não conversam entre si, então você pode estar entre várias pessoas, esperando o ônibus em silêncio. Mas assim que o ônibus atrasa cinco minutos, todos se tornam amigos, ou no mínimo, passam a compartilhar informações e lanches.

Neste momento é claro, as pessoas que estão esperando o ônibus também estão de olho nas forças de ocupação.

Enquanto algumas ligações entre vizinhos e comunidades são profundas,a maioria das conexões surgiu nos últimos meses (e especialmente nas últimas duas semanas) conforme a crise se aprofunda. Pessoas que conheciam dezenas de vizinhanças agora conhecem centenas delas.

A outra origem deste movimento, é claro, são os movimentos que as pessoas já haviam criado para combater o ICE em outros lugares. Todos nós aprendemos uns com os outros. Talvez tudo isso tenha começado com as pessoas de Chicago que viajaram para o norte para ensinar às outras sobre os apitos.

Às vezes eu só paro e penso, penso de verdade, sobre o fato de que são apitos e buzinas de carros, e multidões versus a Gestapo moderna, e que antes de eu visitar Minneapolis, não conseguia entender como isso podia funcionar.

Mas funciona. Funciona pois as pessoas em pijamas e crocs vão gritar com os fascistas às sete da manhã e arriscar terem sua cara coberta de spray de pimenta e simplesmente seguir fazendo isso dia após dia. Está funcionando, e eu acho  que vamos vencer, e vai ser caótico e terrível. Mas enquanto o ICE está envolvido com Minneapolis, eles não são capazes de exercer muito mais força em outros lugares.

Sexta-Feira passada foi o dia da greve geral

.

Geralmente o lema de uma greve geral é “não é um dia de trabalho, como todos os outros”. Mas um dia de trabalho comum tem sido quase impossível em Minneapolis há meses. As famílias que estão se escondendo, as famílias que estão sendo alimentadas, elas não são, e não são vistas simplesmente como “pesos à sociedade” como a direita gosta de descrever. Elas são essenciais para o funcionamento da cidade, e a economia de Minneapolis tem sido absolutamente destruída pela presença do ICE. Em especial, o setor de alimentação e distribuição foi duramente atingido. Eu conversei com alguém que trabalha para um distribuidora de alimentos totalmente apolítica que se uniu à greve geral pois estão desesperados como todos, para que as pessoas voltem ao trabalho, para que possam entregar alimentos ao redor da cidade.

É um testamento da organização descentralizada na cidade que, enquanto eu falava com os organizadores das redes de resposta rápida e de apoio mútuo, eles não eram as pessoas organizando a greve geral. Mas uma greve é inerentemente cheia de líderes, pois é construída pelas pessoas suspendendo sua força de trabalho. Mesmo nos poucos dias que passamos lá, empresa após empresa se uniu ao chamado da greve, parcialmente pois seus empregados não estão podendo ir trabalhar de qualquer forma.

Algumas publicações em redes sociais dizem que esta é a primeira greve geral dos EUA em 80 anos (em referência, eu suponho, a greve geral de Oakland em 1946), mas eu não sou tão velha quanto você pensa e essa é minha segunda greve geral  —houve outra greve geral em Oakland, em 2 de novembro de  2011, durante os protestos do Occupy, que teve basicamente a mesma escala desta.

Mas na última sexta, dezenas de milhares de pessoas lotaram as ruas do centro  no dia mais frio do ano (eu não cansei de reclamar quão frio estava. É assim que você sabe que eu não sou de Minnesota) para marchar contra o ICE.

De manhã cedo, umas poucas centenas de pessoas deram o seu melhor para sitiarem o quartel general do ICE, perto do aeroporto. Manifestante tem estado lá praticamente todos os dias desde que o ICE veio para a cidade, e novamente, as pessoas sustentando essa manifestações são pessoas diferentes com redes de apoio diferentes de outros grupos que fazem outras atividades.

Então, às nove da manhã centenas de manifestantes apareceram com faixas, cartazes e escudos e barricadas e sistemas de som. James e eu chegamos tarde, por conta do já mencionado problema com o carro. Mas não se preocupe, nós chegamos lá a tempo da polícia nos cercar e declarar que seríamos presos se não dispersassemoss, sem nos dar nenhuma indicação de como fazer isso. Os policiais nos disseram para irmos numa determinada estrada, para o oeste, uma estradinha que ninguém à nossa volta jamais havia ouvido falar.

Ao invés disso, nós fomos embora de trem elétrico. Mais um argumento em defesa de um sistema de transporte público forte.

Antes de sairmos, vimos um policial prender três pessoas que se aproximaram deles, com as mãos para cima, provavelmente buscando uma explicação de como fazer o que lhes haviam pedido.

Enquanto isso, centenas de sacerdotes de todo o país chegaram em Minneapolis para protestarem e fazerem desobediência civil, protestando contra o ICE e as deportações. Nós estávamos ocupados sendo encurralados em outro lugar, então não vimos essas ações.

Algumas das prisões mais discutidas nas Cidades Gêmeas foram as de pessoas que o governo Trump acusa de serem anti-religiosos e anti-cristãos, por terem protestado em uma igreja. Mas a fachada de todas as igrejas que vi eram anti-ICE e pró inclusão. A grande maioria das prisões durante a greve geral foram de sacerdotes. Muitas das pessoas com quem passei tempo eram judias praticantes. Observadores muçulmanos nos deram sambusas para comer, enquanto conversávamos com as pessoas protegendo uma creche somali. O quadro da AIM falou sobre o criador.

Os fascistas que se escondem atrás da cruz não falam nem de cristandade, que dirá de religião, espiritualidade, ou do divino.

Na nossa última noite na cidade, fomos recebidos por uma casa cheia de judeus queers que tinham histórias e mais histórias para nos contar. Duas coisas que eles disseram ficaram comigo.

Todos comparam Trump e os fascistas modernos com os fascistas mais famosos de todos, os nazistas. Não é uma comparação motivada pelo medo, mas um olhar sóbrio para a história e para o nosso possível futuro como país. Mutas das pessoas com que falamos tem familiares que sobreviveram — e familiares que não sobreviveram —ao regime nazista, e elas não vão fazer essa comparaçao levianamente.

Um dos nossos amigos descreveu como se sentiu ao encontrar um carro abandonado no meio da rua e tentar descobrir de quem seria. Essa é uma tarefa que eles fazem quase diariamente. Eles precisam investigar o porta luvas e o painel, em busca de documentos ou bilhetes, para encontrar aqueles cujas vidas acabaram de ser arruinadas ou encerradas. Eles se sentiam como buscando por fantasmas. Eles se sentiam como se estivessem na Alemanha dos anos 30.

Outro amigo nos contou histórias de sua infância. Sua família esteve na Alemanha, escondida por anos até conseguirem escapar em 1937. Eles cresceram ouvindo de novo e de novo, que seus vizinhos não os ajudaram. Que a família esteve sozinha até que conseguiram escapar.

A pessoa me contando isso engasgou enquanto falava, e começou a chorar um pouco enquanto eu escutava, e me disse que dessa vez, se ela pudesse ajudar de algum jeito, as famílias que estão escondidas saberiam que não estão sozinhas. Que seus vizinhos estão com elas.

Não dito, mas escrito no rosto das pessoas na sala, estava o fato que vizinhos, desconhecidos, morreriam uns pelos outros. Como Renee God já fez.

Na manhã seguinte, às 9:05 da manhã, Alex Pretti foi desarmado e então executado por federais mascarados. Seu último ato, foi tentar ajudar outra pessoa.

Eu não dormi muito na minha última noite na cidade. James e eu gravamos podcasts, pois esse é o nosso trabalho, o trabalho que viemos fazer, e então dormi um pouco e acordei, levei ele até o aeroporto depois que colocamos a bateria de volta na minha caminhonete —pois, de novo, estava tão absurdamente frio que precisamos levá-la para dentro de casa durante a noite, e então acordar e mexer nos pequenos parafusos no meu motor, bem antes do nascer do sol.

Havia uma tempestade de inverno se aproximando. Coberturas de neve batendo recordes. Se você estava em qualquer lugar da metade oeste dos EUA, talvez tenha pego sua frente fria. De onde eu vivo até Minneapolis é uma distância de dois dias dirigindo, mas novamente eu precisava fazer em um, pois eu precisava chegar antes da tempestade. Eu ia pegar neve em algum lugar, e eu queria que fosse com aqueles que eu amo.

Eu estava na estrada há duas horas quando ouvi que o ICE havia assassinado alguém naquela manhã. Eu fui para o acostamento da rodovia e chorei no estacionamento de um posto de gasolina abandonado.

Após uns quarenta e cinco minutos de introspecção e consultando amigos, eu decidi seguir dirigindo. Por mais que ame Minneapolis, não é minha cidade e eu não a conheço bem o suficiente para navegá-la durante uma emergência, sem assistência. As pessoas haviam se afastado de seus outros trabalhos, seus trabalhos que salvam vidas, para segurarem minhas mãos durante a crise que engoliu a cidade para que eu pudesse ir para casa contar para todos o que vi. Pareceu egoísta voltar. Pareceu egoísta ir para casa. Me sinto auto indulgente só de contar quão dividida eu estava.

Passei as próximas doze horas dirigindo, tão rápido quanto a segurança me permitia, com a tempestade nos meus calcanhares. Eu me livrava dela, só parando para abastecer ou fazer xixi, só para me acabar dentro da tempestade novamente. Isso aconteceu três vezes, e eu não quero que isso seja simbolismo, ou uma metáfora, eu quero que seja uma coincidência.

Mas o caso é que, o que está acontecendo em Minneapolis está acontecendo em outros lugares também, e tem acontecido há algum tempo. As pessoas estão sendo sequestradas e desaparecidas. Pessoas estão morrendo quando são presas e nas ruas. A polícia está matando pessoas, o ICE está matando pessoas.

E no mínimo, tão importante quanto, as pessoas estão tentando pôr um fim nisso. E não é só um bando de ativistas inveterados, nem só as famílias das pessoas mais afetadas.

O que funciona para barrar o fascismo, as Cidades Gêmeas estão nos mostrando, é que todos se mobilizem. Quando todos se sentem empoderados, mesmo se é apenas um sopro num apito ou soar uma buzina ou gritar com seus chinelos na neve. Quando todos compreendem que o trabalho de tornar o mundo melhor é o trabalho de tomarmos responsabilidade uns pelos outros. 

Quando todos entenderem que nós, todos nós, somos vizinhos.

* * *

Eu pedi para as pessoas na linha de frente me darem informações sobre onde outras pessoas poderiam fazer doações para ajudar. Eu só compartilho vaquinhas de pessoas que eu confio e conheço pessoalmente.

Apoio para o aluguél de pessoas em Phillips

Apoio para o aluguél de pessoas em  Central

Apoio para o aluguél de pessoas em  Powderhorn

Apoio para Materiais para Arte Política 

Equipamentos de Proteção para Observadores

Fraldas e Absorventes

Camisetas Abolish Ice (a camiseta que estou usando conforme escrevo)

Northstar Front Line Street Medics

Twin Cities Swoletariat Bail Fund (Venmo e CashApp)

Post navigation

Sobre Orwell e o caso de Mônica e Francisco

Recent Posts

  • Nossos Vizinhos em Minneapolis
  • Sobre Orwell e o caso de Mônica e Francisco
  • Pegue o que Precisar e Composte Todo o Resto:
  • Entrando e Saindo da Prisão
  • Elementos da Cidade e Desafios Técnicos da Guerrilha

Recent Comments

No comments to show.

Archives

  • February 2026
  • December 2025
  • September 2025
  • May 2025

Categories

  • General
Proudly powered by WordPress | Theme: micro, developed by DevriX.